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8º Prêmio Délio Rocha celebra o jornalismo

Prêmio Délio Rocha Foto Flávia Cristini G1

(Foto: Flávia Cristini / G1)

Confraternização anual dos jornalistas mineiros, a entrega do Prêmio Délio Rocha 2014 foi um retrato da grandeza e das angústias do jornalismo no ano que está terminando. A grandeza esteve presente na celebração dos valores verdadeiros do jornalismo, representados nos 18 trabalhos premiados, cuja qualidade dignifica a profissão. As angústias ficaram por conta dos episódios de violência e censura ao trabalho profissional, transformados, na cerimônia, em homenagens do Sindicato a dois reconhecidos jornalistas mineiros: Eduardo Costa e João Paulo. Uma terceira homenagem foi prestada ao jornalista Robson Abreu, pelos dez anos da sua revista PQN.

A festa, realizada na noite da quarta-feira (17) no salão da CDL BH, reuniu centenas de jornalistas de várias gerações. Além da entrega dos prêmios e das homenagens, um coquetel, o DJ Anônimo e as bandas Marcelo Veronez e Djalma Não Entende de Política animaram os presentes. Descontraída, sem palco e conduzida pelo jornalista Elias Santos, a cerimônia foi ágil e agradável.

Na abertura, o presidente Kerison Lopes destacou o grande número de inscritos, 152, apesar do pequeno prazo de inscrição, e ressaltou a importância do Prêmio para a união da categoria; lembrou que ele próprio aproximou-se do Sindicato quando concorreu em 2007 e conquistou o segundo lugar. Kerison disse que é difícil imaginar um ano tão importante para o jornalismo, especialmente o mineiro, como foi 2014, repleto de fatos que transformaram Belo Horizonte na capital do jornalismo brasileiro, exigiriam trabalho intenso dos profissionais e atuação permanente do Sindicato.

“Este foi um ano em que o Brasil realizou a Copa do Mundo, que entrou para a história do futebol e representou muito trabalho para os jornalistas”, lembrou. “O Sindicato realizou uma série de atividades e deu apoio aos companheiros que vieram de outros estados e outros países.”

Em seguida, a eleição presidencial colocou em confronto dois candidatos belo-horizontinos e novamente a capital mineira foi centro das atenções. Os movimentos sociais e o Sindicato tiveram papel fundamental na eleição ao denunciar o ambiente de repressão policial e de censura à imprensa vigente em Minas nos últimos 12 anos. Para completar, os dois grandes clubes mineiros foram protagonistas no futebol nacional este ano, convergindo atenções e muito trabalho jornalístico para a capital. 

Prêmio Délio Rocha Foto Gil Sotero 2

(João Paulo, Robson Abreu, Gil Sotero, Kerison Lopes e Eduardo Costa – Fotos: Gil Sotero)

Violências e homenagens

Nem bem passaram os campeonatos e as eleições e novos episódios agitaram no jornalismo mineiro. “Nem só de alegrias é feito o jornalismo, mas também de adversidades”, comentou Kerison Lopes, citando a censura ao jornalista João Paulo, editor de Cultura do jornal Estado de Minas, e a invasão do estúdio da Rádio Itatiaia por policiais civis mineiros, na tarde de 9/12, seguida de ameaças ao repórter Eduardo Costa. Os dois veteranos jornalistas estiveram presentes à cerimônia e foram homenageados.

A invasão da Itataia, a pretexto de prisão de um entrevistado procurado pela justiça, mas cujo mandado judicial não foi exibido, foi um fato sem precedentes na imprensa mineira, transmitido ao vivo pela emissora. Flagrante desrespeito à liberdade de imprensa e à liberdade de expressão, a violência policial prosseguiu em audiência na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa, acompanhada por uma centena de policiais, vários deles armados, apesar da proibição pela Casa, para intimidar os depoimentos de Eduardo Costa e Kerison Lopes; para ir ao banheiro, contou Costa, ele precisou ir escoltado – e continua sofrendo ameaças.

“Se naquela ocasião cem policiais o ameaçaram, hoje você tem mais de cem jornalistas a apoiá-lo”, disse Kerison, elogiando a conduta de Eduardo Costa. “Vamos continuar defendendo a liberdade de exercício da profissão e a liberdade de expressão”, enfatizou o presidente do Sindicato.  

“Essa intimidação mostra a importância de nós, jornalistas, nos unirmos cada vez mais”, disse Eduardo Costa. Sucinto, dizendo-se muito triste com o episódio e com um boletim de ocorrência “mentiroso” produzido pela polícia, ele resumiu em duas frases sua disposição de não se curvar à violência: “Primeiro, foi bom porque vi que o Sindicato dos Jornalistas e o Sindicato dos Radialistas não negaram fogo. Segundo, se o José Maria Rabelo [fundador do jornal alternativo Binônimo, perseguido pela ditadura e exilado durante 15 anos] está aqui, vivo e forte, por que eu é que vou ter medo?” Costa e Rabelo foram muito aplaudidos por todos.

Censura e empreendedorismo 

O jornalista João Paulo Cunha, que trabalhou durante 18 anos no jornal Estado de Minas, 17 deles como editor do caderno Pensar, e que se demitiu na véspera do Prêmio, por não concordar com a censura aos seus artigos, também foi homenageado. “Este é um dos dias mais tristes do jornalismo mineiro”, disse o presidente Kerison. “Todos sabemos o que o João representa para o jornalismo mineiro e brasileiro. Mais do que o jornalismo, quem perdeu foram os leitores.”

A vice-presidente Alessandra Mello, colega de João Paulo no jornal, observou que o ex-editor é um profissional discreto, que aparece pelo seu texto e por saber tudo de jornalismo. “Se nós já o admirávamos pela qualidade do seu trabalho, passamos a admirá-lo ainda mais por sua coragem”, disse Alessandra. “Em nome da coragem e na defesa do jornalismo cidadão e plural, nós lhe agradecemos e temos muito orgulho de você.”

João Paulo agradeceu o apoio do Sindicato e a solidariedade dos colegas. “Não é uma homenagem pessoal, é uma homenagem a quem acredita no jornalismo de qualidade, um jornalismo que não se alinha com os poderosos econômicos e políticos”, disse. “É uma homenagem à nossa profissão, e acho que a gente deve continuar lutando por ela.”

O terceiro homenageado da noite, o jornalista Robson Abreu, foi elogiado pelo diretor de Comunicação do Sindicato, Gil Sotero, como um exemplo de empreendedor, por manter a revista PQN há uma década. “Há dez anos ele sonhou fazer uma publicação e realizou o seu sonho”, disse Gil, passando a Robson um diploma de “honra ao mérito”. “Não é fácil ser empreendedor de comunicação em Belo Horizonte, mas não é impossível”, disse Robson. “Quando a gente quer, a gente consegue.”

Os vencedores

O 8º Prêmio Délio Rocha de Jornalismo de Interesse Público contemplou 18 trabalhos, classificados em primeiro, segundo e terceiro lugares, em seis categorias: Reportagem Impressa, Reportagem Fotográfica, Reportagem de Televisão, Reportagem de Internet, Reportagem de Rádio e Reportagem Impressa Estudante de Jornalismo. A categoria Reportagem de Internet foi criada este ano. Todos os premiados receberam troféu e um prêmio em dinheiro – R$ 4.000, para o primeiro lugar, R$ 3.000 para o segundo e R$ 1.000 para o terceiro, nas categorias profissionais; na categoria Estudantes, os prêmios foram, respectivamente, de R$ 1.500, R$ 1.000 e R$ 500.

Prêmio Délio Rocha 3Estudantes

O primeiro lugar na categoria Estudante foi do aluno Igor Patrick Silva, do sétimo período de Jornalismo da PUC Minas, por sua reportagem “Na ponta da agulha”, publicada no Caderno de Reportagens Malditas, sob orientação da professora Sandra Freitas. O prêmio foi entregue pela representante da Unimed BH, Márcia Siqueira.

O segundo lugar foi da estudante Bárbara Pansardi, do oitavo período de Jornalismo da UFMG, com a reportagem “Resistência renovada”, publicada na revista Rolimã, sob orientação do professor Bruno Souza Leal. O prêmio foi entregue pelo jornalista e professor João Carlos Firpe Penna.

O terceiro lugar na categoria ficou com a estudante Marília dos Santos Mesquita, do quinto período de Jornalismo da UFOP, com a reportagem “Os riscos da vida na mineração”, publicada no jornal laboratório Lampião, sob orientação da professora Karina Barbosa. O prêmio foi entregue pelo jornalista José Maria Rabelo.

A comissão julgadora da categoria Estudante foi formada pelos jornalistas Daniela Serra, Marcelo de Freitas Assis Rocha e Paulo Roberto Saturnino Figueiredo.

Prêmio Délio Rocha 4Rádio

O primeiro lugar na categoria Reportagem de Rádio ficou com a repórter Mônica Cristina Miranda dos Santos, da Rádio Itatiaia, pela matéria “Seca no Norte de Minas”. O prêmio foi entregue pelo assessor de Comunicação da Fiat, Roberto Baraldi.

O segundo lugar ficou com Márcia Helena Soares Bueno, da Rádio Inconfidência, com matéria “A polêmica das sacolas biodegradáveis”. O prêmio foi entregue pelo diretor do Sindicato dos Radialistas Valdir Costa do Nascimento.

O terceiro lugar foi entregue a Edilene Lopes do Nascimento, da Rádio Itatiaia, pela reportagem “Seguro morreu de velho: mercado gera comportamento sustentável”, da qual participaram também Laura Rezende e Alexandre Nascimento Botinha. O prêmio foi entregue pelo diretor do Sindicato dos Jornalistas Paulo Sérgio de Oliveira.

A comissão julgadora da categoria Rádio foi formada pelos jornalistas Sueli Cotta de Oliveira, Grazielle Mendes e Carla Lúcia Batista Kreefft.

Prêmio Délio Rocha 5

(Valéria Pinto e Alessandra Mello)

Internet

Premiação realizada pela primeira vez este ano, a categoria Reportagem de Internet teve como grande vencedora Valéria Mendes Pereira Pinto. Ela conquistou o primeiro lugar, com a matéria “Violência obstétrica: se você ainda não acredita, escute essas mulheres”, e o segundo lugar, com a série de reportagens “Crianças refugiadas: o desafio do recomeço”, ambas publicadas no portal Uai. Os prêmios foram entregues, respectivamente, pelo assessor de imprensa da Vale, Leandro Grandi, e pelo diretor do Sindicato dos Jornalistas Francisco José Pereira.

“Fiquei muito feliz pelo reconhecimento da categoria”, disse Valéria. “É muito importante discutir os direitos da mulher”, ressaltou a premiada, referindo-se à reportagem classificada em primeiro lugar. “Muitos colegas insistem em que essa agenda está superada, mas essa matéria é um exemplo de que temos de continuar abordando a violência contra as mulheres. O prêmio confirma que estou no caminho certo.”

O terceiro lugar na categoria ficou com Flávia Cristine do Carmo Cajazeiro, com a matéria “Estudante comemora autorização para usar remédio à base de maconha”, veiculada no portal G1. Também participou da equipe Humberto Trajano. O prêmio foi entregue pelo assessor de imprensa da Prefeitura de Belo Horizonte, Acyr Benfica. Participaram da comissão julgadora os jornalistas Maria Cândida de Medeiros Canêdo, Danny Starling e João de Castro Lima César.

Prêmio Délio Rocha 6

(Saulo Silva – de óculos – e equipe)

Televisão

A exemplo de Internet, a categoria Televisão teve também um duplo vencedor: Saulo Luiz da Silva. Ele conquistou o primeiro lugar, com a série “Nascidos do crack”, e o terceiro lugar, com a série “Praça Sete sem lei”. Participaram da equipe da primeira série Cristiane Leite, Cíntia Neves, Fernando Zuba, Geraldo Careta, Jackson Lobo, Alexandre Luiz, Naiana Andrade e Guilherme Homem. Da segunda série, participaram Larissa Carvalho, Henrique Stênio, Ricardo Prates, Marília Esteves e Fábio Vieira. Os prêmios foram entregues, respectivamente, pelo prefeito de Contagem, jornalista Carlim Moura, e pela idealizadora do Prêmio Délio Rocha, jornalista Vilma Tomaz.

“Foram trabalhos de equipe”, ressaltou Saulo, que em 2013 também foi premiado com o Délio Rocha. “Eu ainda sou um jornalista romântico, acho que o jornalismo consegue mudar a vida das pessoas para melhor e esse prêmio representa isso. O prefeito não recebe pessoas comuns, mas recebe a imprensa, e assim a gente pode ajudar essas pessoas, nem que seja um pouquinho.”

O segundo lugar na categoria Televisão foi conquistado por Denilson Gonçalvez Cajazeiro, pela matéria “Democratização da mídia”, veiculada na TV Bandeirantes. Participaram da equipe Cecília Alvim, Eduardo Gomes, Nanci Alves, Saulo Martins, Bruno Carvalho, Jocasta Luíza e Débora Junqueira. O prêmio foi entregue pelo diretor de Comunicação Institucional da Assembleia Legislativa, Lúcio Perez. A comissão julgadora foi formada pelos jornalistas Eneida Ferreira da Costa, Antônio Achiles Alves da Silva e Rogério Vasconcelos Faria Tavares.

Prêmio Délio Rocha 7Fotografia 

O primeiro lugar na categoria Reportagem Fotográfica ficou com Leandro César Ribeiro Couri, com o trabalho “Livres para destruir”, publicado no jornal Estado de Minas. Ele ganhou também o terceiro lugar, com “Fogo avança e mata”, foto publicada no mesmo jornal. Participaram da primeira equipe Mateus Parreira, Thiago de Holanda e Luciane Evans; da equipe premiada em terceiro lugar, participaram Guilherme Paranaíba e Landercy Hemerson. Os prêmios foram entregues, respectivamente, por Cristiano Cunha, assessor de imprensa da Vale, e Helder Guimarães, representante da CBMM.

O segundo lugar na categoria foi vencido por Jaques Diogo Ramos de Azevedo, com o trabalho “Tem de tudo, inclusive simpatia”, publicado nos jornais O Tempo e Super Notícia. Também participou da equipe Natália Oliveira. O prêmio foi entregue pela vice-presidente do Sindicato, Alessandra Mello. A comissão julgadora foi formada pelos repórteres fotográficos Maria Cecília Pederzoli Leite Soares, Alessandro Carvalho e Leonardo Pinho Lara.

Prêmio Délio Rocha 8

(Mauro Werkema, Elias Santos, Bruno Moreno, Kerison Lopes e Artênius Daniel)

Impresso

O primeiro lugar na categoria Reportagem Impressa foi conquistado por Bruno de Carvalho Moreno, com a série “Copa sem escola”, publicada no jornal Hoje em Dia. “Este é o prêmio mais importante de Minas Gerais, o seu nome já diz tudo”, disse Bruno. “Eu sempre juntei ao meu trabalho o interesse público do jornalismo e as obras da Copa mostraram isso, pela sua influência na vida de crianças e adolescentes”, explicou. O prêmio foi entregue pelo presidente da Belotur, Mauro Werkema.

O segundo lugar ficou com Paulo Henrique Lobato dos Santos, pela reportagem “A real abolição”, publicada no jornal Estado de Minas. Ele fez questão de dividir o prêmio com seu colega João Paulo e posar ao seu lado. A premiação foi feita pelo presidente do Sindicato, Kerison Lopes. O terceiro lugar foi para Júnia Emmanuelly Oliveira Silva, com o trabalho “Uma guerreira anônima”, também publicado no Estado de Minas. O prêmio foi entregue pelo vice-presidente da CDL BH, Marcos Inneco. A comissão julgadora da categoria Impresso foi formada pelos jornalistas Ana Paola Amorim, Fernando Antônio Machado Lacerda Silva e Maurício Lara Camargos.

O Prêmio Délio Rocha de Jornalismo de Interesse Público – que homenageia no seu nome o companheiro Délio Rocha, um exemplo de jornalista e sindicalista, falecido em 2008 – é uma realização do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais, que este ano teve o patrocínio da Petrobras, Vale, Unimed BH e Assembleia de Minas, e apoio da CDL BH, Prefeitura de Belo Horizonte e Fiat.

(Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais)

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Arlene Brito

Arlene Brito

Jornalista formada pelo Centro Universitário do Sul de Minas (Unis-MG). Atuou em praticamente todos os órgãos de imprensa de Três Pontas (MG): TV Cidade, Rádio Três Pontas, Jornal Tribuna, Assessoria de Comunicação da Prefeitura Municipal, Jornal Correio Trespontano e agora está à frente do site Sintonizeaqui. Indicada para compor a equipe de assessoria de imprensa do Governo de Minas Gerais (2003/2010), optou por continuar em sua Terra Natal registrando os principais fatos e acontecimentos e, assim, ajudar a escrever a história do Município conhecido internacionalmente como a Capital da Música e do Café.