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Especial – “Um dia pode acontecer de dar uma seca forte e elas terão serventia para o povo passar” Assim previu o português, José Rodrigues, há 52 anos, morador que liderou o movimento contra a destruição das pontes do Pontalete

Antes da estiagem a travessia era feita por balsa. Vinha gente de Paraguaçu, de Elói Mendes e de muitas outras localidades da mesma região sulmineira. Do lado de cá da Represa de Furnas os visitantes lotavam os bares e o restaurante da orla. Os píeres ficavam cheios, as casas flutuantes tinham sempre visitas e os jet skys proporcionavam alegria longe dos incontáveis banhistas. Principalmente nos finais de semana, turistas se misturavam aos trespontanos na apreciação da simplicidade e das belezas naturais do Pontalete, Distrito de Três Pontas. 

As águas praticamente desapareceram. São meses e meses seguidos sem chuvas nas cabeceiras, fundamentais para dar mais volume aos rios e elevar o atual crítico nível do reservatório. No lugar delas agora são vistos animais – cada vez mais gordos pela rica pastagem – e plantações, predominando os milharais. É um cenário diferente, triste para muitos que se acostumaram com a Represa cheia e para outros mais que se refrescavam no Pontalete antes mesmo da chegada deste escaldante verão.

A balsa há tempos está ancorada em único ponto. Ainda assim, para a alegria dos anfitriões, os turistas continuam chegando mesmo que em menor número. Atraídos pela hospitalidade – uma das características marcantes do povo de Três Pontas, consequentemente do “Bico do Pontal”, eles cruzam as fronteiras municipais por estradas de terra e ultrapassam os rios Verde e Sapucaí por pontes históricas.

Juscelino Kubitschek, Governador de Minas, veio para inaugurá-las, no início dos anos 50. Ele foi recebido com festa e com gratidão daquela comunidade, afinal para os moradores as obras – uma que ligava o Pontalete a Elói Mendes e outra o Distrito a Paraguaçu – simbolizavam o progresso. Por elas, poderia ser impulsionado o escoamento da produção agrícola da já avançada localidade surgida no século XIX.

Dona Libélia Rodrigues 1

Dona Libélia diz que o pai, José Rodrigues, liderou o protesto contra a destruição das pontes que ligam o Distrito do Pontalete aos municípios de Elói Mendes e Paraguaçu

Com bandeiras brancas nas mãos e com a melhor roupa “de ir à missa”, Libélia Rodrigues Alves Guilger, então com 15 anos, estava entre os alunos do grupo escolar escolhidos para recepcionar o ilustre mineiro. Com a turma, sobre uma das pontes, ela viu Juscelino passar, acompanhado de autoridades da região. Ficou impressionada… com os sapatos de verniz pretos que o Governador usava na importante ocasião. “Não conseguia olhar para mais nada”, recorda Libélia, hoje com 76 anos. E explica. “A gente, lá no Pontalete, tinha os sapatos sempre cheios de terra. O dele brilhava”. 

Dez anos se passaram, Kubistchek se tornou o Presidente do Brasil e tomou a decisão que deixou o povo do Pontalete incrédulo. Parte do lugarejo – a exemplo de outras cidades mineiras – ficaria debaixo d’água. A inundação viria também em nome do progresso. Era preciso criar o reservatório de Furnas para a geração de energia elétrica. Moradias, o hotel, casas comerciais, a estação do trem, árvores plantadas com tanto carinho, desapareceriam – assim como as pontes que deveriam ser dinamitadas para não impedir a passagem de embarcações.

Quando Furnas desapropriou as áreas inundáveis por preços irrisórios, quem tinha outra casa em locais mais altos do Distrito para lá se mudou. Quem não possuía tal recurso veio para Três Pontas ou foi embora para outras cidades. Animais domésticos foram vendidos e os selvagens obrigados a deixar o habitat natural. Residências, estabelecimentos comerciais, os trilhos foram, aos poucos, engolidos pelas águas… as pontes também.

Protesto armado

E se os caminhos ainda existem, permitindo a integração dos povos de lá e de cá da Represa ou dos rios que voltaram a correr em seus próprios leitos, há um generoso mentor. “Em 1963, os japoneses afirmavam que as pontes nunca mais apareceriam. Meu pai respondia, ‘eu não acredito. Um dia pode acontecer de dar uma seca forte e elas terão serventia para o povo passar’”, conta Libélia.

Defendendo sua ideia, o português, José Rodrigues, “pegou sua espingarda e articulou com um grupo de moradores a resistência à demolição. O protesto foi tão contundente que a ideia da demolição foi abortada. As pontes permaneceram e parte do leito foi cavado mais fundo para permitir a travessia da balsa”.

José Rodrigues estava coberto de razão. A estiagem veio. Passados 36 anos da inundação, entre 1999/2000, a seca trouxe à tona as pontes dos anos 50. Com elas recordações para alguns e revelações para outros mais jovens. No final de 2002, aconteceu a mesma coisa. Desde então, a escassez de chuvas castiga o Sul de Minas e também outras partes do Sudeste Brasileiro. E as pontes que eram submersas continuam à vista, sendo úteis, servindo como previu o português. 

“Eu acredito que as águas retornarão, sim, que haverá a recuperação da Represa e que este cenário, outra vez será modificado”, encerra Libélia, depois de visitar a ponte onde, há mais de 60 anos, esteve com os colegas estudantes para anfitriar Jk, o Governador que criou, o Presidente que alagou.

Mais tarde, o Pontalete recebeu algumas melhorias. Chegou a energia elétrica, a praça, o asfalto nas ruas. A Praça, reformulada na Administração Paulo Roberto Nogueira (04/03/1999 a 04/09/2000) recebeu, por sugestão do radialista e ex-Vereador, Ruy Quintão, o nome da mãe de Libélia, Dona Cinoca (Purcina Rodrigues Alves), uma mulher muito bem informada e querida por todos.

Mesmo sem as águas, a revitalização do Distrito continua. A construção de calçadão e de banheiros públicos e ainda a colocação de grades de proteção e playground estão entre as mais recentes benfeitorias promovidas pelo Governo Municipal. Um recurso para amenizar o sofrimento de um povo que ficou sem suas terras, agora sem as águas de onde a maioria – pecadora – tira o sustento. Meio de ajudar quem aposta na capacidade turística do Distrito, construindo casas de aluguel e montando pontos comerciais. Uma forma de melhor receber os visitantes que continuam prestigiando o lugarejo e, ao lado da comunidade, rogam a Deus que ele volte a ser banhado pelo Mar de Minas. 

 

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Arlene Brito

Arlene Brito

Jornalista formada pelo Centro Universitário do Sul de Minas (Unis-MG). Atuou em praticamente todos os órgãos de imprensa de Três Pontas (MG): TV Cidade, Rádio Três Pontas, Jornal Tribuna, Assessoria de Comunicação da Prefeitura Municipal, Jornal Correio Trespontano e agora está à frente do site Sintonizeaqui. Indicada para compor a equipe de assessoria de imprensa do Governo de Minas Gerais (2003/2010), optou por continuar em sua Terra Natal registrando os principais fatos e acontecimentos e, assim, ajudar a escrever a história do Município conhecido internacionalmente como a Capital da Música e do Café.