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ESPECIAL – Placa é descerrada e completa oficialização de reconhecimento à psicóloga da Unidade Prisional de Três Pontas “Rita de Cássia da Luz”

Arlene Brito/Fotos: Paulo Prado

O som que brotava do violino tocado pelo reeducando da Unidade Prisional de Varginha, Warley Lima de Andrade e dos teclados do professor de música, o trespontano Elias de Brito Pereira sinalizava que a noite da terça-feira, 25 de junho, seria mesmo especial. Os convidados foram chegando, recepcionados sorridentemente pela advogada Caroline Luz Zanetti, filha única de Rita de Cássia da Luz – psicóloga que, naquela oportunidade, receberia a homenagem póstuma, o reconhecimento público do trabalho que desenvolveu auxiliando na humanização do atendimento no presídio de sua terra natal, Três Pontas.

A cerimônia levou familiares, amigos, colegas de profissão, autoridades do município e de fora ao Plenário da Câmara. Quem teve a oportunidade de conhecer Rita Luz relembrou a face alegre estampada no “telão”, outra singela forma de reverenciar a mulher que deixou positivas marcas na história da cidade, da região e um legado para as futuras gerações.

Da tribuna, “Carol” recordou a trajetória de desdobramento da mãe, que enfrentou bravamente burocracias e falta de recursos para criar e implantar projetos ressocializadores, na tentativa de impermeabilizar a ociosidade das celas. Lembrou o pensamento que Rita buscou colocar em prática inovando o presídio: “o corpo pode estar privativo de liberdade, mas a mente não. A mente pode ir onde nós quisermos que ela vá” – e tentou conduzir tantas mentes pelos caminhos da educação, da cultura, do esporte, da prestação de serviço. Também citou o papel solidário e acolhedor que a mãe assumiu, chamando os reeducandos de “meus meninos”.  

“Segundo Dra. Caroline, todos os projetos criados por Rita foram registrados e patenteados para que tenham legitimidade e possam ser sequenciados. “Espero eu que tudo isso que foi mostrado aqui hoje toque outras pessoas para que deem continuidade a este trabalho”, finalizou.

A Lei

Homenagear a psicóloga falecida em 7 de março de 2015 foi iniciativa do defensor público Rodrigo Murad do Prado. Em ofício encaminhado à Câmara Municipal de Três Pontas em julho daquele mesmo ano, ele relatou todo o diferenciado trabalho que Rita desenvolveu na Secretaria de Estado de Defesa Social através de benfeitorias e inovações feitas no sistema prisional de Três Pontas.

Coube aos vereadores da Legislatura passada seguir com o processo, encaminhando o pedido à Assembleia Legislativa. O então vereador Geraldo Messias Cabral foi um dos que mais se empenharam. Com ajuda do deputado estadual Carlos Pimenta, nasceu o Projeto de Lei 2.907/2015, sancionado pelo governador do Estado, Romeu Zema Neto, em abril de 2019.


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Representando o deputado Carlos Pimenta, a vereadora Marlene Lima analisou como justa a homenagem. “Posso dizer com muito orgulho que Rita foi a personificação da abnegação, do preocupar-se com o outro, às vezes se esquecendo de si mesma e dos seus problemas, mas abraçou com vigor, com determinação e compromisso a causa que acreditava”, disse. E completou: “o presídio para Rita não era trabalho, mas uma causa, um desejo de sociedade com mais oportunidades”, enfatizando que a psicóloga foi exemplo de honestidade, serenidade e amor.

Também pronunciou o prefeito Marcelo Chaves Garcia. Destacando a importância da soma de esforços, o gestor municipal informou que Três Pontas foi premiada em Belo Horizonte e em Brasília. A parceria Governo de Minas – por meio da Secretaria de Estado de Administração Prisional (Seap), Prefeitura e Presídio de Três Pontas foi reconhecida com a concessão do Selo Resgata de Responsabilidade Social, que permite a 31 empresas mineiras “mostrar para a sociedade que elas se empenham em dar oportunidades de trabalho às pessoas acauteladas, garantindo-lhes uma oportunidade de recomeço e ressocialização”. Para o prefeito, a “pedra fundamental” foi lançada pela psicóloga Rita da Luz.

Ao discursar, o diretor Regional da Seap, Washington Fonseca Borges, que trabalhou com Rita já como diretor da Unidade Prisional de Três Pontas, afirmou que a colega psicóloga era uma mulher guerreira das causas prisionais e sociais e atribuiu a ela grande parte de um mérito ainda comemorado. Segundo ele, há quase dez anos na Unidade não acontece intercorrência de grave ou gravíssimo porte, um diferencial que, mencionou, começou com Rita de Cássia da Luz, afinal era ela integrante da equipe que avaliava as condições dos reeducandos.

Borges comemorou o fato da Unidade ter começado de maneira precária e se transformado em modelo no estado de Minas Gerais. “Não temos questões de superlotação, de maus tratos, de tratamento desumano ou imparcial”, comentou, acrescentando que 97% dos reeducandos são do município de Três Pontas, pessoas custodiadas na tentativa de uma mudança comportamental para que voltem ao convívio social melhor. “Esta era a proposta que a Dra. Rita tinha implementado lá (…) O legado da sua mãe, Carol, está sendo continuado”.

“O exemplo da Dra. Rita foi maravilhoso, ela iniciou essa perspectiva de ressocialização do cidadão em desvio, inicialmente com as demandas internas, com os projetos e, com o decorrer do tempo, com a evolução da unidade, com a evolução da estrutura da Unidade Prisional a gente conseguiu transportar isso para fora dos muros, atingindo as atividades externas iniciando com o Coral, posteriormente com as atividades de trabalho externo via Prefeitura e hoje nós temos os resultados deste trabalho sendo reconhecido de modo estadual e nacional, e conseguindo trazer reconhecimento para o município de Três Pontas. A Rita era uma visionária. Algumas atividades que a gente iniciou aqui foram desdobradas para o Estado, foram exemplos para outras unidades prisionais”.

Quem também recordou os méritos da colega de trabalho foi o ex-diretor de Segurança do Presídio de Três Pontas, atual diretor da 18ª Região Integrada de Segurança Pública (Poços de Caldas), Adriano Souza da Silva. “Era impressionante, todos os dias a Rita tinha um projeto diferente na cabeça e conseguia fazer a grande magia de transformar os sonhos em realidade. O nome da psicóloga Rita está eternizado em Três Pontas, no Presídio de Três Pontas e em nossos corações”, sintetizou.

Encerrando as falas da noite, o presidente da Câmara, vereador Maycon Machado, agradeceu a todos que colaboraram para que a cerimônia acontecesse, prestando “honrada e merecida homenagem à saudosa Rita”. E à filha dela, Caroline, se dirigiu citando Madre Teresa de Calcutá: “Por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no mar. Mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota”.

Marlene Lima, Marcelo Chaves, Caroline, Washington Borges e Maycon Machado após descerramento da placa

Na cerimônia, que contou com a participação dos músicos trespontanos Beto Maciel e Oswaldo Duarte, Caroline entregou Cartão de Prata à vereadora Marlene, representante do deputado estadual Carlos Pimenta, e recebeu flores de Jorge e Natália – representantes do Grupo de Psicólogos e Psicólogas de Três Pontas e também do ex-prefeito Luiz Roberto Laurindo Dias e esposa Iara por intermédio da servidora da Câmara, Rosa Maria Reis Chagas. Após a placa ter sido descerrada, os convidados participaram de um coquetel oferecido por Caroline.

Rita de Cássia da Luz

Rita de Cássia da Luz nasceu em Três Pontas no dia 22 de junho de 1963, filha de Marilena Funchal Luz e Francisco de Paula Vitor, e estudou Psicologia na Fumec em Belo Horizonte.

Formada e residindo em Belo Horizonte, tinha a empresa PSICAN, que atuava no setor de recrutamento e seleção para as empresas no setor de recursos humanos.

Quando voltou a residir em Três Pontas, trabalhou como psicóloga na Apae e também lecionou Psicologia na Faculdade de Três Pontas (Fateps) aos alunos do curso de Técnico em Enfermagem, trabalho que teve a duração de quatro anos. Também realizava atendimentos em sua clínica particular.

Em 20 de junho de 2011, foi selecionada para fazer parte da equipe da Suapi – Subsecretaria de Administração Prisional local, em que, basicamente, sua função seria o atendimento clínico dos detentos que por ali passassem.

Ocorre que Rita tinha uma missão de vida: humanizar e ressocializar aqueles seres humanos que estavam em um momento diferente de suas vidas, porém um momento passageiro. Então, criou projetos no presídio local, tais como: Coral Renascer – Musicoterapia, Aulas de Teatro, Artesanato masculino e feminino, Campeonatos esportivos (futebol, dama e dominó), Biblioteca Bárbara Luz, Projeto Cartas para Deus, Datas Comemorativas (Dia da Mulher, Dia Mundial da Religião, Carnaval e outras), Cinematerapia, Dinâmicas de Grupo – entre outros.

A explosão de reconhecimento e amor foi tão grande, que juntamente com a Defensoria Pública do Estado de Minas Gerais, houve premiação no Inovare 2013 – A Justiça do Século XXI, com o tema: “Escutar e intervir – Medidas Alternativas ao Desenvolvimento Cognitivo e Remição de Pena”, em que a homenagem teve a presença de juízes, promotores e demais representantes da sociedade.

Em 7 de março de 2015, Rita faleceu em decorrência de infarto fulminante. Mas seu reconhecimento não parou com a morte. Mesmo no velório, reeducandos foram escoltados para que pudessem cantar as músicas do Coral e prestar sua última homenagem.

Por fim, frisa-se que Rita sempre foi humilde e humana, e em decorrência do reconhecimento de seu trabalho, na data de 16 de abril de 2019 foi publicada a Lei Estadual nº 23.295 que dá denominação à Unidade Prisional localizada no Município de Três Pontas-MG.

 

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