Política em Três Pontas

“Tenho que saber gerir as coisas para um dia coordenar o Brasil”, planeja estudante do Parlamento Jovem-Minas de Três Pontas

Arlene Brito

Laura Helena Pessi Oliveira, 16, cursa o 2º ano do Ensino Médio na Escola Coração de Jesus-Objetivo de Três Pontas e tem um plano audacioso: ser influente líder política, postulando, inclusive, a Presidência do Brasil. A inspiração nasceu no seio familiar. O avô, Luiz Pessi, chegou a disputar uma das vagas na Câmara Municipal. Mas, embora a política seja pauta de constantes discussões em casa, foi no Parlamento Jovem de Minas que a menina se descobriu uma agente de transformação.

No ano passado, Laura Helena entrou para o projeto que tem como finalidade dar a estudantes do ensino médio de Minas Gerais a oportunidade de conhecer melhor a política e os instrumentos de participação no Poder Legislativo municipal e estadual. A cada ano, os jovens escolhem um tema de relevância social e vivenciam atividades de estudo, debates e deliberação que contribuem para sua formação política. Todo o trabalho – que passa pelas etapas municipal, regional e estadual – resulta na elaboração de propostas que são entregues às autoridades políticas das cidades e também à Comissão de Participação Popular da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), podendo alterar atuais legislações ou gerar novas leis.

Prefeito Marcelo Chaves; Lúcia Helena e a filha Laura Helena; presidente da Escola do Legislativo vereador Maycon Machado; vice-diretora da Escola Coração de Jesus-Objetivo Maria José Mendonça e o diretor da Escola do Legislativo de TP Guilherme Oliveira

Em 2018, o tema do PJ-Minas foi “Política e Violência Contra a Mulher” e os subtemas “Violência doméstica e familiar”, “Violência nos espaços institucionais de poder” e “Violência e assédio sexual”. Nesta edição, Laura Helena recebeu 78 dos 104 votos em Plenária Regional, sendo eleita a representante do Polo Sul de Minas III para um dos mais marcantes momentos do PJ: a Plenária Estadual realizada nos dias 19, 20 e 21 de setembro. Foi então para Belo Horizonte e lá deu mais um passo ao ser a escolhida para coordenar as discussões do subtema três. Defendeu com todas as forças as propostas finais e sentiu que estar à frente de um dos poderes – Executivo, Legislativo ou Judiciário é a sua essência e é destemida ao cogitar gerir a Nação Verde-Amarela.

Jovens Parlamentares após solenidade de certificação realizada na noite de ontem (25) na Câmara Municipal de Três Pontas (Foto: Carlos Castro)

Na noite desta quinta-feira (25), momentos antes do início da solenidade de entrega dos certificados, finalizando a quarta edição do PJ-Minas de Três Pontas, Laura Helena falou com exclusividade ao SintonizeAqui sobre algumas vivências oportunizadas pelo projeto idealizado pela ALMG e PUC-Minas e realizado na Câmara Municipal de Três Pontas (Escola do Legislativo “Maria Rogéria de Mesquita”).

Convicta, a Jovem Parlamentar, primeira trespontana a ocupar cadeira na bancada dos deputados mineiros, mostra que o futuro começa agora, por isso ela já se prepara e já faz a diferença.

Entrevista

Laura Helena Pessi Oliveira
Estudante do 2º ano do Ensino Médio na Escola Coração de Jesus-Objetivo.
Membro do Parlamento Jovem-Minas de Três Pontas (Escola do Legislativo “Maria Rogéria de Mesquita”).
Coordenadora dos debates do subtema “Violência e assédio sexual” na Plenária Estadual do PJ-Minas 2018.

Laura Helena, você entrou para o PJ no ano passado quando o tema foi “Educação Política nas Escolas”. O que você achou de ter trabalho em 2018 o assunto “Violência Contra a Mulher”?

Este tema está em alta desde 2015 quando o tema da redação do Enem foi ‘A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira’. É um tema recorrente, muito importante porque quando olhamos dados, por exemplo, que uma mulher é estuprada a cada 11 minutos, que uma mulher é espancada a cada 2,5 minutos no Brasil, vemos a importância de falarmos disso, de sabermos que as leis nos amparam porque não estamos livres da violência. Sendo mulher, qualquer uma de nós pode sofrer violência a qualquer momento. Acontece, pode acontecer e temos que estar preparadas para evitar essas situações. 

O que mais chamou a sua atenção no decorrer deste ano de trabalho aqui na Escola do Legislativo de Três Pontas?

A representatividade. As mulheres tiveram – sim – poder de voz. Em Belo Horizonte, por exemplo, tivemos três mulheres à frente das coordenadorias dos subtemas. A maioria na Plenária era de mulheres e, mesmo não nos conhecendo, tivemos um sentimento de uma pela outra. E mesmo aqui em nossa cidade, as mulheres se uniram para trabalhar em prol de nós mesmas e isso é lindo, lindo mesmo!

Você é a primeira trespontana a coordenar as discussões de um subtema em uma Plenária Estadual do Parlamento Jovem-Minas. Fale sobre esta experiência.

Então! Eu ocupei um lugar que é de um deputado estadual – e no dia a ficha não caiu – para defender ideias em nome de uma sociedade mais justa, de maior respeito às mulheres. Foi uma experiência fantástica. Conheci ótimos advogados das consultorias – eles ampararam a gente; a equipe da Assembleia Legislativa foi impecável, ajudou em todas as dúvidas e os jovens parlamentares trocaram muitas experiências. Conheci pessoas com histórias, meninas que se levantavam e diziam: ‘eu fui estuprada, eu estou aqui porque eu não quero que isso aconteça com outras mulheres’. Aqui, no nosso Parlamento Jovem de Três Pontas mesmo, quantas pessoas têm histórias de vida muito tristes, regadas à violência; pessoas que cresceram vendo o pai espancar a mãe – isso é muito triste e saber que nós fizemos tudo para mudar isso é fora de base!

No ano passado, a Isabela Scalioni foi relatora na Plenária Estadual e agora tivemos também a participação da Alanis Sacho Campos. Elas também brilharam. Agora, quando eu subi e peguei o microfone para chamar a atenção daquele monte de gente para os projetos, a voz tremeu. O mais emocionante, sem dúvida alguma, é quando pegamos o documento com as propostas de leis e entregamos à coordenadora do Parlamento Jovem-Minas. É hora que a gente pensa: eu cumpri o meu dever. E eu vi a mudança de perto. Na nossa mesa tinha uma transexual, a Alice, de Uberlândia e ninguém olhou estranho para ela. Isso é o mais bonito porque nossa sociedade é machista, misógina, transfóbica e a Alice estava lá, de batom e tudo – e ninguém olhou estranho, foi um companheirismo fantástico.

Estudante Laura Helena entregando propostas para o prefeito Marcelo Chaves Garcia

Laura Helena, o que você espera das autoridades políticas de Minas Gerais em relação a todo este um ano de trabalho do PJ?

Olha, éramos 104 jovens na Plenária Estadual e todos nós fizemos história porque se esses projetos tramitarem e forem sancionados muita coisa vai mudar. Em relação a Três Pontas, espero das autoridades principalmente empatia, que elas olhem para as leis, mas não engavetem; que elas olhem para as leis e falem: opa, este é um assunto recorrente. Uma policial militar veio ao PJ e mostrou o mapa da violência contra a mulher em Três Pontas e é muito grande, precisa ser melhorado. Ah, e temos propostas para as escolas de âmbito público e particular: discutir sobre o machismo, ensinar para as crianças que não é certo agredir a coleguinha, os xingamentos entre as meninas, enfim, que principalmente a Prefeitura mostre para as escolas que o assunto violência contra a mulher tem que ser pauta rumo à transformação.

E o que você espera da nossa população?

Espero interesse, espero que as pessoas cobrem a implementação das propostas. É assim, todo mundo reclama que algo está ruim, mas no geral ninguém se importa e deixa correr solto. Não, temos que atuar. O pessoal sabe que tem medidas legais para mudar realidades, mas o jeitinho brasileiro é um jeitinho pesaroso. Não é só a corrupção que está acabando com o nosso Brasil, mas é também esse jeitinho brasileiro; as pessoas falam com orgulho dele e eu falo com vergonha.

O que toda esta experiência junto à Escola do Legislativo muda em sua vida?

Muita coisa. Depois que subi naquela Plenária, decidi que eu quero estar naquela Assembleia. Já estou começando a minha campanha (risos); quem sabe daqui a uns 20 anos você vota em mim (risos). É muito legal e realmente é o que eu quero para a minha vida, se for para eu mudar para melhor a vida das pessoas por que não eu trabalhar no Legislativo, no Executivo da nossa cidade, do nosso estado, do nosso país? Eu me encontrei. Toda vez que eu subo nesta tribuna, aqui da Escola do Legislativo de Três Pontas eu me encontro. É isso que eu quero fazer: transmitir o meu conhecimento para as pessoas. Quero que um dia alguém fale: nossa, eu me identifico com aquilo que a Laura Helena falou, com o que ela faz ou com o que ela fez.

Então, isto significa que nós poderemos ter uma conterrânea líder política?

Significa demais! Cada vez mais eu quero isso. Quero começar como vereadora, mas de verdade o Executivo me chama.  Sempre fui muito comunicativa, gosto de leis, gosto de trabalhar e de falar sobre política. Política não é uma coisa chata; chata é politicagem. Política é a coisa mais bonita do mundo, você ter direito de votar, escolher seu presidente, pode falar em um plebiscito ou referendo. Nós, brasileiros, temos a chance de fazer a história do nosso país, muitas vezes mal feita – mas com possibilidade de mudar, olha que coisa linda é isso! E é isso que eu quero um dia: as pessoas confiando em mim. Quero trabalhar em um dos três poderes: Judiciário, Legislativo, mas o Executivo está, assim, me puxando. Estou no caminho e já tenho em mente três faculdades: Direito, Relações Internacionais e Gestão Pública. Tenho que saber gerir as coisas para um dia coordenar o Brasil.

Jovens Parlamentares acompanham a solenidade de encerramento dos trabalhos na Escola do Legislativo de Três Pontas

PJ encerrando as atividades. Laura Helena seguirá na edição 2019?

Ano que vem fecharei o Ensino Médio e vou me preparar ainda mais para a faculdade de Direito, mas estarei aqui para ajudar no que for preciso porque além de amigos, aqui a gente ganha conhecimento. Ah, quero saber, sim, sobre racismo que é um tema super falado, que foi um dos mais cotados para o Enem e que temos visto tantos ataques racistas pelo mundo! Estarei aqui ajudando na elaboração das propostas, estarei nas plenárias brigando pelas ideias que achar melhores. Outra coisa é certa, não quero representar nossa cidade, nosso Polo na Plenária Estadual porque o tema será racismo. Como eu acredito muito no lugar de fala, penso que o lugar de fala é de quem sofre com o tema proposto. Eu sou mulher, então, sofro com esta sociedade machista, com esta sociedade patriarcal, que mulher não sofre, não é? Como disse minha professora de história, a ‘Tia Ju”, a primeira sociedade privada do mundo foi a mulher. No ano que vem quero muito ajudar quem for lá defender o tema e, quem sabe, ser também um coordenador.

Estamos em plenas Eleições Gerais. O que você pensa sobre o poder de voto das mulheres?

No Brasil, as mulheres começaram a votar em 1935, na Suíça e Suécia em 1976 e, veja, nós não estamos só votando, estamos – graças ao PJ – tendo a chance de elaborar um projeto de lei, ou seja, estamos tendo a chance de fazer uma mudança muito grande não só para mulheres que nasceram mulheres, mas também para as mulheres trans. 

Sua mensagem, a mensagem da possível presidente do Brasil para os eleitores de Três Pontas.

Tenham consciência do que farão. Analisem quanto vocês estão dispostos a piorar ou manter. O mundo fala das ameaças à nossa democracia. Espero que os eleitores olhem, não somente para seus interesses, mas para o bem comum: para as mulheres, para os gays, para os negros para quem está nos grupos dizimados. Espero que o amor vença o ódio. E cito aqui a escritora inglesa Mary Wollstonecraft: ‘deixe a mulher compartilhar dos direitos e ela emulará as virtudes dos homens’. Sem muitos direitos já quase conquistamos o mundo, imagina com nossos direitos sendo assegurados de verdade, na prática. Amo ser mulher somente pela representatividade da nossa história: Joana d’Arc, Simone de Beauvoir, Frida Kahlo, Madre Tereza… amo carregar isso comigo e espero um dia estar em um grupo desses. Precisamos de compaixão, de empatia, de equidade.


Sintonize mais: relembre entrevista concedida pela redatora da Lei que criou a Escola do Legislativo de Três Pontas, Valéria Evangelista, em 2014


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