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Trespontano dá boas-vindas ao atacante Roger; conheça o amor deste torcedor especial pela Ponte Preta

Na tarde da última quinta-feira (23), o Ponte Preta apresentou oficialmente o atacante Roger, que vai integrar a equipe de Campinas pela quinta vez.  O jogador assumirá a liderança e é uma das esperanças para o acesso do time no Campeonato Brasileiro. Para o jogador de 34 anos, chegar à artilharia da Série B é um sonho, mas “o objetivo maior é devolver à Ponte a Série A”. O Clube ocupa hoje o 13º lugar no Brasileirão. 

Na recepção, além dos dirigentes do Clube e colegas de trabalho, Roger recebeu boas-vindas de um torcedor especial.  Fã do atacante, Vitor Campos estava lá, abordou com ternura o ídolo a quem presenteou um coração muito bem desenhado e colorido por ele próprio. “Obrigado, Vitor, Deus o abençoe pelo carinho”, retribuiu Roger com simpatia ainda dentro do abraço fraterno.

José Vitor Campos nasceu em Três Pontas no dia 22 de janeiro de 1965, e se mudou com a família para Campinas em 1969, quando tinha apenas quatro aninhos de vida.  Em 1977 pisou pela primeira vez na sede da Associação Atlética Ponte Preta, guiado pelas mãos do querido pai, o senhor Antônio dos Reis Campos. Amou tudo aquilo, assim, também de primeira.

Por mais de 30 anos, Vitor e seu “Totonho” frequentaram as arquibancadas pontepretanas.  Vibraram com as emoções proporcionadas pela Macaca: ora alegres, ora tensas, ora nem tão felizes – mas para Vitor jamais decepcionantes. Vivenciaram, lado a lado, vitórias e derrotas peculiares desta arte chamada futebol.

Se a Ponte conquistou verdadeiramente o amor desse menino, Vitor soube retribuir cativando o elenco, técnicos, presidência, diretorias, a torcida – gente que, mais tarde, sentiu a ausência… O desportista louco pela Macaca deixou de ir ao estádio e nas poucas vezes que foi, incentivado pela única irmã, Rosângela, chorou… Naquele cenário, a partir de 2009, faltava um astro: o companheiro que lhe deu a vida, que lhe apresentou a fonte do entretenimento, que se desdobrou pensando em sua inclusão. O sofrimento de estar ali sem “Totonho” falou tão alto que Vitor se afastou… até receber motivadora carta. As palavras escritas pelo então presidente do Clube,  atual presidente de Honra, Sérgio Carnielle, encorajaram ao mostrar a Vitor o quanto ele é importante para o time, para tantos amigos – dentre eles os jogadores – a quem fascinou com sua meiguice, com sua força, com seu conhecimento.

“Costumo dizer que a Ponte Preta, que este amor fez o Vitor superar muitas perdas: a perda do nosso pai, da nossa mãe Zélia. O Vitor é de uma geração em que o Down ‘não poderia’ ter acesso à sociedade e ele provou que era capaz. Tirou título de eleitor em 1984, trabalhou no McDonald’s, estudou e aprendeu a ler. É de uma geração cuja expectativa de vida era 7, 14, 21 anos. O amor, incluindo o que sente e recebe da Ponte, e o incetivo o levam à superações constantes”, conta Rosângela. É ela quem acompanha o irmão ao campo em todas as partidas desde que Vitor decidiu voltar.

Loucuras pela Macaca

Vitor é sócio-torcedor de carteirinha, tem livre acesso ao Clube e coleciona até o momento 42 camisas do time do coração doadas e autografadas por seus ídolos. Se os amigos pontepretanos decidem se reunir para um bate-papo, um jantar festivo lá está ele se divertindo, se sentindo literalmente em casa, no seio de uma família tão querida e respeitada quanto à natural de origem sul-mineira.

Pela Macaca, o eterno garoto faz loucuras. A irmã se lembra, dentre as peraltices, que Vitor foi suspenso da escola porque passou a levar, escondido meio ao material didático, um rádio para, lógico, acompanhar as notícias da Ponte Preta mesmo em sala de aula. Certa vez, internado na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) chorou tanto que o médico liberou o radinho e o torcedor vibrou diante da vitória da alvinegra sobre o tricolor São Paulo.

Ritual

Como bom trespontano, Vitor Campos é devoto do xará – o Beato Padre Victor, a quem recorre cheio de fé para que a Ponte Preta se dê bem, orações reforçadas para partidas decisivas. Se for o dérbi campineiro então, o clássico confronto entre Guarani e Ponte Preta, aí sim, até as almas “do cemitério” recebem o pedido de apoio. Algumas tias do interior também passaram a orar para o time, a pedido do sobrinho torcedor fanático. Em Minas, Vitor é atleticano, mas revela com determinação: o Atlético é paixão, a Ponte é amor.

Devoto, Vitor recorre ao Beato Padre Victor para que Ponte Preta “se dê bem”

Diversão, alegria, superação. Tudo isso Vitor encontra na Ponte Preta. No estádio fica todo feliz, canta, xinga, grita, se emociona e faz as pessoas se emocionarem. “Faço tudo para levá-lo aos jogos e só não vamos quando ele está doente, aí acompanhamos de casa mesmo. Mas tem um detalhe, como diz Vitor, ‘lá é melhor’ – e é mesmo porque está com os amigos, com a família pontepretana, rodeado de pessoas que querem apenas o bem dele, então, é fascinante”, detalha Rosângela.

Sangue

Síndrome de Down, Vitor Campos é brincalhão, assiste diariamente a vários telejornais, curte discutir política e, evidentemente, futebol. O pai era um amante da modalidade esportiva, e das Três Pontas recorda que o tio “Caco” também. Isso sem falar no primo José Luiz que embalou torcidas inteiras integrando o titular do Trespontano Atlético Clube (TAC) – renomado em toda a região. “O amor pelo futebol está no sangue”.

Sonhador, Vitor tem um desejo exatamente como ele é, especial. Ver bem de perto a disputa TAC x Ponte Preta e, entre risadas, questiona: “de qual lado o Lúcio Flávio vai ficar?” – se referindo ao conterrâneo “Piraí” das famílias Miranda e Carvalho que fez carreira na sua amada Macaca.

Vitor Campos exibe bandeira da Ponte Preta em foto de Glauco Araújo, tirada para a reportagem do G1: Brasil tem 300 mil pessoas com Síndrome de Down (2009)

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