Educação, Cultura e Lazer em Três Pontas

Lançado em Três Pontas “Dropz”, livro que reúne crônicas de Marcelo Carota Anos vividos na cidade interiorana foram fundamentais para a definição da linha de trabalho, revela o escritor

Entrevista: Jessica Mesquita Silva / Redação: Arlene Brito

Trespontanos e gente de outras partes das Gerais, de outros estados do Brasil chegaram e foram recebidos por Isabela Morais e seu violão. A acolhida foi bem característica da cidade: com sorrisos e música boa. Quem foi percebeu, já nas boas-vindas, que aquela tarde de inverno tinha clima leve e sabor de quero mais. Então, cada um – acompanhado de familiares, de amigos – se acomodou à espera do bom e velho cafezinho da terra. Preparada com grãos de alta qualidade, a bebida ganhou versões batizadas com nomes de canções de um filho ilustre: Milton Nascimento. No ambiente, propositalmente aconchegante, plainava o perfume inconfundível da dose coada na hora e a ele juntou-se o aroma de um novato orgulho do município de nome Lavandas da Serra.

A mesa estava posta: alfazemas, café, água e os livros ali ao alcance das mãos. Z Carota tinha uma caneta no bolso da roupa fina e um singelo abraço a ser dado em retribuição a cada presença. Durante horas, pessoas continuaram chegando, cumprimentando, lendo, participando ativa e alegremente do dia de autógrafos. Cada breve leitura, feita em bom tom, arrancava a certeza de que a aquisição de um exemplar traria momentos de pura diversão e mais, a identificação de vivências cotidianas.

“Dropz” era a fonte, a obra capaz de promover risos, de prender os olhos enquanto descansava mentes. Assuntos rotineiros, protagonistas comuns eram revelados e, de imediato, alguém do público se reconhecia ali naquelas linhas. Este é o grande charme do livro, conta o autor. “Tem gente que me pergunta se as histórias aconteceram mesmo e eu respondo: elas acontecem com todo mundo, o tempo inteiro; é só prestar atenção.”

Naqueles 10 de agosto, convidados de idades variadas movimentaram a Cafeteria Cocatrel. Alguns reencontraram o amigo, outros conheceram o escritor. No geral, todos passaram horas agradáveis saboreando perfumes, iguarias, conversas, saudades, descobertas. Foram porque sabiam, ou melhor, sabem: o que é bom tem que ser consumido e consumiram, acima de tudo, cultura.

Livro Dropz Marcelo Carota Z Carota Entrevista
Marcelo Carota – “Z Carota”
Jornalista, escritor

Marcelo, Dropz?

Sim, ‘Dropz – Crônicas pop-proletárias e tostões de amor’. Dropz com ‘z’. Eu venho do universo das fanzines, então eu quis manter esta origem. O livro é todo cheio de referências ao meu passado, à infância no caso das crônicas. As fanzines, as fotonovelas fizeram de mim o autor que me tornei. E, meu pseudônimo é Zê Carota.

E por que pop-proletárias?

O corpo do livro é zine. São histórias populares mesmo, são histórias de amor envolvendo várias personagens que são trabalhadores… eu não lido com a figura do herói, os meus heróis são comuns, são ela, ele, um fato banal que acontece e eu transformo dando protagonismo às pessoas mais simples.

De onde vem esse olhar para a simplicidade?

Existe a cultura de que a pessoa tem que ser extraordinária, mas na verdade todo mundo é extraordinário. Tem gente que me pergunta se as histórias aconteceram mesmo e eu respondo: elas acontecem com todo mundo, o tempo inteiro; é só prestar atenção. Tem história acontecendo o tempo inteiro.

Dentro das suas crônicas existe algo das suas vivências em Três Pontas?

Não diretamente, mas sem a minha vivência aqui eu não escreveria este livro, que é exatamente este olhar para a gente mais simples, que é pegar pessoas que são aparentemente simples, simplórias e mostrar que elas são extraordinárias. Sem a minha vivência em Três Pontas eu não seria um escritor, tudo nasceu aqui.

Como é esta história do Marcelo, esta história pessoal?

Bom, eu nasci em São Paulo, mas vivi em Três Pontas de 1977 a 1985. Foi pouco, mas intenso. Eu era um menino de selva de pedra e vim para o interior com 11 anos. Quando aqui cheguei, vovó disse assim: ‘vai pra rua; menino aqui não fica dentro de casa’ e minha mãe ficou apavorada. E eu fui… fui roubar jabuticaba, jogar ‘bets’ e queimada na rua, na praça. Estudei Técnica Agrícola na Escola Estadual Deputado Teodósio Bandeira e frequentei, entre tantos ambientes, as fazendas da minha família. Como todo menino de cidade grande eu vivia em apartamento, então, imagina, aqui descobri um mundo, descobri a liberdade.

imagem cartaz sombrinha

Cafeteria Cocatrel foi local escolhido para apresentação do livro de crônicas para os trespontanos

E o que estas descobertas trouxeram de positivo para a sua vida e até mesmo para a sua carreira literária?

Quando cheguei aqui tive a sensação que eu tinha nos livros: de que eu podia tudo. Eu lia histórias e tinha a sensação de que as pessoas podiam tudo. Quando eu lia isso em São Paulo, parecia que era ficção. Aí chego a Três Pontas e ouço ‘vai pra rua’, senti que eu também podia tudo: subir em uma árvore, roubar uma fruta, tomar tiro de sal, correr de cachorro, jogar bola… os primeiros beijos, o primeiro amor, a primeira namorada – tudo aqui. Tudo antes para mim era ficção. Três Pontas foi para mim um livro que se abriu e vi que o mundo existe.

Vamos voltar às crônicas de Dropz?

Sim, 90% do que está no livro aconteceu. É ficar atento ao que está acontecendo, aí percebo uma história, uma fala que ele fez aqui eu acompanho ou às vezes uma fala me dá uma ideia de uma situação absolutamente incrível. Só uma parte do livro é ficcional e se chama ‘tostões de amor’; é ficcional, mas é baseada em vivências. Tem romance entre açougueiro, tem romance entre costureira – são personagens que eu antes achava que só existiam em livros e aqui em Três Pontas vi que são de carne e osso. Então, ao invés de colocar pessoas ricas, que têm tudo na vida, para quem tudo é mais fácil eu comecei a perceber que é no falso banal que está a riqueza maior.

Dropz tem um público específico?

São histórias pra todo mundo ler, basta querer. A crônica foi criada para ser publicada no jornal, uma leitura acessível a todos – e descartada no dia seguinte. O Rubem Braga mostrou que era possível colocar poesia na crônica, uma poesia lúdica, uma linguagem poética, não a forma poética e, assim, aquilo encantar a todos. É este o caminho que eu tento fazer. Então você, sua mãe, sua sobrinha… todos podem ler.

Este é o primeiro livro autoral, Marcelo?

Sim, é o primeiro, é o livro de estreia, mas já cedi crônicas. Tenho uma vivência política muito grande porque trabalhei em nove ministérios em dez anos. Entrei com crônicas nos governos Lula, Dilma. Cedi crônicas para autores de livros, participei cedendo, não são livros meus.

Dropz foi lançado em 2017 e já recebeu indicações para importantes prêmios. Vamos falar destes importantes momentos?

Vamos, deixe-me vender meu peixe aqui. Dropz é o livro mais vendido da história da editora, a Penalux. Acho que passou de 16 reedições. A editora sentiu o potencial e o inscreveu no ‘Oceano’. Este prêmio é uma parceria Brasil-Portugal, mediada pelo Itaú Cultural. Os prêmios são R$ 100 mil para o 1º lugar, R$ 60 mil para o 2º, R$ 40 mil para o 3º e R$ 30 mil para o 4º colocado. São várias categorias e eu entrei exatamente em crônicas. Sou finalista e o resultado sai dia 29 de novembro. Dropz também está inscrito no Prêmio Jabuti.

Após este lançamento em Três Pontas, como adquirir o Dropz?

Diretamente com a editora. Basta mandar um e-mail com o título Dropz. Custa R$ 40, incluindo frete. O endereço é [email protected]

imagem professor Pasquale e escritor Carota Língua Portuguesa

“Z Carota’ acompanhado do professor Pasquale e de outros convidados no lançamento de “Dropz” em Três Pontas

E falando em lançamento, hoje temos aqui Pasquale. O que representa para você a presença do professor?

Fiquei muito contente pelo seguinte: eu tento fazer da minha literatura uma coisa pop – que está no título, transferir valores literários de uma maneira acessível a todos. E qual é o grande barato do Pasquale? Ele é um cara que pegou a Língua Portuguesa – que não é fácil e, através de canções, da música popular ele dá aulas a partir disso e de uma maneira pop. Ele é um cara que levou os valores da Língua Portuguesa por uma linguagem popular que é a da música. Eu faço pela Literatura.

Marcelo, você participou diretamente do Festival Canto Aberto, como jurado. O evento realizado pela Prefeitura de Três Pontas, por intermédio da Secretaria Municipal de Cultura, além de música, teve concurso de fotografia, maquete, poesia. Qual é sua opinião em relação ao incentivo à poesia?

O que as escolas, o que as crianças fizeram foi lindo. O Festival foi um amor, foi muito legal e eu tenho uma proposta: ampliar. Além da poesia, a crônica – que talvez seja o gênero literário mais fácil para uma criança, que é uma redação que ela está habituada a fazer na escola. A poesia teve como alvo compositores famosos de Três Pontas, café, a Apae… ok, eles reportaram uma realidade nossa, mas e o olhar desses alunos, dessas crianças sobre a vida? A crônica vai dar oportunidade de expressão. Com a entrada da crônica no Festival, as crianças serão estimuladas a ler mais, ler bons autores. Eu sou fruto da Coleção ‘Para Gostar de Ler’, que era uma coisa paradidática para crianças e pré-adolescentes. Nela, li crônica e disse: quero ser isso. Tem Fernando Sabino, tem Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Luis Fernando Veríssimo, Carlos Eduardo Novaes, é um universo…


“Dropz” pode ser adquirido pelo seguinte e-mail: [email protected]

Sintonize mais: Relembre quais foram os vencedores do Festival Canto Aberto


E como você se sente – vindo de uma geração incentivada à leitura – poder transmitir, transferir a motivação através das suas crônicas, do livro e em uma era digital, de mídias sociais?

Acho muito positivo. Não dá para abdicar da figura física do livro, da relação sensorial – o cheiro, o tato, o fazer anotações no livro e, ao mesmo tempo, a plataforma Facebook como uma catapulta de divulgação. Hoje eu tenho um público enorme e dificilmente o teria sem Facebook, sem Instagram. Então, é uma alegria muito grande vender livro numa época em que o aprendizado está todo fragmentado e este é o lado ruim da rede social. As pessoas têm preguiça de ler algo maior do que 140 caracteres ou cinco linhas, a linguagem é toda de memes e isso é que impulsiona as pessoas a lerem. Então, conseguir vender bastante livro, estar no Prêmio, conseguir leitor é uma alegria. Estou realizado.

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