Educação, Cultura e Lazer em Três Pontas

Expedição à Serra de Três Pontas mostra potencial para a localização do histórico “Quilombo do Cascalho”; área deverá passar por escavações arqueológicas

No dia 4 de maio, uma equipe multidisciplinar formada por pesquisadores de duas universidades realizou a primeira expedição à Serra de Três Pontas. A ação foi coordenada pelos professores Luís Cláudio Pereira Symanski, do Departamento de Antropologia e Arqueologia e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Marco Aurélio Leite Fontes, do Departamento de Ciências Florestais da Universidade Federal de Lavras (Ufla). Participaram ainda os discentes de graduação Isabella Oliveira e Tiago Henrique da Silva, mestrando Geraldo Pereira de Morais Junior, doutorando Wanderley Junior e a professora Ellen Maira de Alcântara Laudares, do Departamento de Educação da Ufla.


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Localizar a região conhecida como “Quilombo do Cascalho” foi o objetivo traçado pelos integrantes da expedição, então, os pesquisadores voluntários deram início a um importante trabalho de vistoria da superfície, marcação de pontos com GPS em locais que apresentassem construções e estruturas aparentes, além de uma documentação fotográfica do local.

Mais a fundo

Segundo a cartografia histórica, o Quilombo do Cascalho se situaria no sopé da Serra de Três Pontas, se aproveitando da topografia e das drenagens locais.

“Estivemos nesta área e subimos no alto da Serra, com o propósito de visualizar a região e definir as áreas mais propícias para a implantação do referido assentamento. A área encontra-se, em sua maior parte, ocupada pelo cultivo do café, com exceção das laterais das drenagens, ocupadas por linhas compridas e estreitas de matas de galeria. Embora não tenhamos encontrado indícios do Quilombo, há probabilidade de encontrá-lo com o uso de prospecções arqueológicas sistemáticas, ou seja, com escavações e outras técnicas, concentradas nas colinas aplainadas situadas entre as duas principais vertentes que descem da Serra de Três Pontas”, destaca o professor Symanski, com entusiasmo.

Os pesquisadores consideram que a área do Quilombo do Cascalho apresenta grande potencial para a localização do assentamento, devido aos indícios paisagísticos apontados no mapa dos quilombos setecentistas. Então, a ideia agora é delimitar as dimensões deste quilombo e, em seguida, realizar as intervenções arqueológicas em pontos previamente selecionados, de modo a obter amostragens significativas de setores variados deste sítio. O ideal, reafirma o grupo voluntário, será realizar um projeto de escavação, expondo áreas amplas e evidenciando possíveis estruturas e locais de concentração de material arqueológico

Segunda Expedição à Serra de Três Pontas fará levantamento de Fauna e Flora

Dando prosseguimento às atividades do Projeto “Área de Proteção Ambiental Serra de Três Pontas” (DCF/Ufla) será realizada em breve a segunda expedição. O grupo está sendo construído com apoio de representantes do Conselho Gestor Municipal de Área de Proteção Ambiental Serra de Três Pontas e terá como principal missão realizar o levantamento de Fauna e Flora na Serra – símbolo do município sul-mineiro.

Tiago Henrique revela que haverá novos pesquisadores voluntários e que serão encaminhados convites para acompanhamento dos trabalhos aos representantes das secretarias municipais de Meio Ambiente e de Cultura, Lazer e Turismo de Três Pontas, Conselho Municipal de Políticas de Igualdade Racial (Compir), Conselho de Desenvolvimento Econômico e Sustentável de Três Pontas (Condes-TP), Conselho Municipal de Turismo (Contur) e ao Conselho Deliberativo Municipal do Patrimônio Cultural de Três Pontas para que os pesquisadores tenham amplo apoio logístico, estrutural e  institucional. O professor Symanski ressalta que buscará financiamento para esta pesquisa em editais nacionais e estrangeiros, considerando, inclusive, a possibilidade de uma parceria com a University of Illinois, de Chicago (EUA).

“Cabe destacar o enorme potencial científico do Quilombo do Cascalho e também do Quilombo Nossa Senhora do Rosário, por se tratarem de assentamentos da primeira metade do século XVIII que foram organizados por escravizados fugitivos, muitos dos quais africanos da região do Congo e Angola. O estudo sistemático desses sítios, a ser iniciado com o Quilombo do Cascalho, fornecerá informações inéditas sobre o cotidiano, a cultura, a economia e as formas de organização social no interior desses estabelecimentos, contribuindo, assim, para o desenvolvimento da história da diáspora africana no Brasil”, relata confiante o  professor Symanski.

Quilombo Nossa Senhora do Rosário

O grupo visitou ainda a comunidade Quilombo Nossa Senhora do Rosário, onde moradores foram receptivos e se esforçaram para passar informações fundamentais para o trabalho prático de pesquisa. O historiador Paulo Costa Campos também recebeu os integrantes do Projeto “Área de Proteção Ambiental Serra de Três Pontas”, que é coordenado pelo discente trespontano Tiago Henrique da Silva, graduando em Engenharia Ambiental e Sanitária (Ufla) com a orientação do professor Marco Aurélio Leite Fontes. Paulo Costa Campos é um dos colaboradores do Projeto.

De acordo com o primeiro relatório expedido pelo pesquisador Symanski, na localidade Quilombo Nossa Senhora do Rosário foram realizados visita à Igreja e reconhecimento inicial da área. “Não encontramos elementos visíveis que remetessem à ocupação quilombola setecentista e, pelas informações locais, parece ter havido alguma ruptura entre aquela ocupação colonial e os ocupantes atuais da localidade”.

Igreja de São Sebastião, na comunidade Quilombo N S do Rosário foi um dos pontos visitados pelos pesquisadores que elogiam recepção da comunidade

Segundo o professor, será necessário um estudo mais detalhado da cartografia histórica e das fontes documentais a fim de delinear uma área provável de instalação do assentamento setecentista que possa também ser sujeita a prospecções arqueológicas sistemáticas, ou seja, ao levantamento, inclusive com escavações, para identificação da presença de vestígios que possam definir as características deste povoamento.

Dados do historiador Paulo Costa Campos mostram que o Quilombo Nossa Senhora do Rosário foi decretado distrito de Três Pontas em 1883. No entanto, a origem deu-se entre 1740 e 1746 com a destruição do Quilombo do Ambrósio, localizado provavelmente entre os municípios de Cristais e Ibiá. Durante o ataque dos brancos, muitos negros escaparam e refugiaram-se em várias localidades, inclusive na região de Três Pontas, onde foram formados dois quilombos: o do Cascalho, próximo à Serra e o Quilombo das Araras, também denominado Quebra-Pé e, posteriormente, Nossa Senhora do Rosário do Quilombo. Os brancos sentiram-se ameaçados e exigiram providências do governo. Segundo Paulo Costa, uma expedição punitiva partiu do Arraial dos Buenos, que se situava na freguesia das Lavras do Funil, e dividiu-se em grupos, a fim de exterminar de vez os quilombos de toda esta região. A expedição avizinhou-se às Lavras do Funil e de lá prosseguiu viagem. No dia 27 de agosto de 1760, chegou ao sertão das Três Pontas. Os expedicionários atacaram e destruíram o chamado Quilombo Queimado. A seguir, no dia 30 de setembro de 1760, fizeram uma pausa no local chamado de Boa Vista hoje pertencente a Campos Gerais. A destruição do Quilombo foi por uma batalha entre quilombolas e capitães do mato. Depois os habitantes voltaram para o aldeamento. Na época havia 80 casas. Com os quilombos extintos, mais povoadores chegaram à região.

Tiago Henrique explica que “o assentamento setecentista ao qual se refere o pesquisador professor Symanski, seriam justamente os vestígios dessas primeiras habitações. Como eles não foram encontrados, é necessário escavar a área. Os participantes da expedição comemoram, no entanto, a identificação de resquícios de construções de meados de 1850, que demostram a dinâmica de ocupação deste território ao longo do tempo.

Construção demonstra a dinâmica de ocupação do Quilombo N S do Rosário

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