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Tráfico de drogas é o crime mais cometido por menores em Três Pontas. Veja entrevista com o capitão da PM, Júlio César Gomes

Neste ano, de janeiro a outubro, a Polícia Militar de Três Pontas registrou 143 ocorrências envolvendo menores, sendo que a maioria entra para o mundo da criminalidade principalmente pelo uso e tráfico de drogas.

A recorrente informação, passada quase que diariamente para a imprensa, sobre apreensão de menor praticando o narcotráfico na cidade chama a atenção e o SintonizeAqui foi até a sede da 151ª Companhia de Polícia Militar de Minas Gerais em busca de detalhes sobre esta realidade.

Quem recebeu a reportagem, foi o capitão Júlio César Gomes Soares. Segundo o comandante, há um intenso trabalho de combate ao tráfico de entorpecentes no município, já que essa prática desencadeia uma sucessão de ações criminosas que ameaçam o patrimônio, a tranquilidade, a segurança dos moradores, portanto, causam prejuízos que afetam toda a comunidade. Na linha de frente desse tráfico estão meninos a partir dos 12 anos de idade, revela o capitão.

Entrevista
Júlio César Gomes Soares
Capitão da Polícia Militar de Minas Gerais – Três Pontas

Capitão, qual o perfil dos menores envolvidos com a criminalidade em Três Pontas?

São menores a partir dos 12 até os 17 anos envolvidos com a criminalidade aqui em Três Pontas, sobretudo, com o crime de tráfico de drogas. No entanto, há menores praticando também crimes contra o patrimônio, furtos, roubos. A maioria é formada por meninos. Com relação à questão educacional, também a maioria não frequenta a escola – mesmo que on-line, como tem exigido a pandemia Covid-19. E quando frequentam é com muita dificuldade. São menores problemáticos tanto no seio de suas famílias quanto no âmbito escolar.

Nós da imprensa recebemos informações sobre ocorrências envolvendo esses menores e o número nos parece preocupante.

Sim. Em relação a números, neste ano, de janeiro a outubro, tivemos 143 ocorrências envolvendo menores. Do montante, 52 ocorrências de menores sendo conduzidos como autores de tráfico de drogas. Temos 41 conduzidos por uso de drogas, sete por furtos, seis por desobediência, outro por moeda falsa e assim segue-se uma relação com menor prevalência. Então, observa-se que a maioria é por tráfico e consumo de drogas. São muitas ocorrências, mas poucos menores envolvidos, a grande maioria é reincidente.

E quanto à periculosidade, eles apresentam um grau considerável?

Por estudos que realizamos e também pela nossa experiência, verificamos que o tráfico de entorpecentes está relacionado com outros tipos de crime, inclusive com os crimes violentos que vão desde lesões corporais até homicídios. Do grupo de menores envolvidos com a criminalidade em Três Pontas, a maioria, como citei, é reincidente e poucos deles praticam crimes violentos, se envolvem diretamente com esse tipo de crime. Neste ano, um caso marcante foi a abordagem feita por dois menores a uma taxista na rodoviária de Três Pontas, ela foi ameaça e teve seu veículo subtraído. Depois, eles foram até Alfenas onde praticaram outro crime violento.

Capitão Gomes, e qual tem sido o caminho da Polícia Militar quando há identificação e apreensão de menor envolvido com o crime violento?

O menor quando pratica crime violento pode sofrer a sanção de restrição da liberdade. É o que aconteceu, por exemplo, com esses dois menores que acabaram apreendidos e internados.

O senhor mencionou que a maioria dos menores envolvidos com a criminalidade, especialmente com o tráfico de drogas, é reincidente. Como é lidar com essa situação, se deparar constantemente com esses meninos já tão conhecidos pelos militares?

É um desafio no âmbito da Polícia Militar como um todo, não somente aqui em Três Pontas essa questão de reincidência de menores e também de maiores. Nós procuramos manter nossa tropa motivada. Os policiais militares de Três Pontas são altamente qualificados e motivados para cumprir a missão deles, então, não se deixam vencer por estas questões que nós sabemos que existem, por exemplo, fazer a apreensão de um menor ou a prisão de um maior e dali a pouco eles estarem de novo nas ruas praticando os mesmos crimes. A gente sabe dessa dificuldade, desse problema que é do sistema. Existe uma Legislação e o juiz de Direito, o Ministério Público, a Polícia Militar estão adstritos a ela. É o nosso trabalho apreender esses menores quantas vezes se fizerem necessárias e vamos fazê-lo.

Procuramos manter nossa tropa motivada para que esse trabalho seja contínuo. Sabemos da importância de retirar esse pessoal de circulação, de fazer apreensão de drogas, de armas de fogo, de apreender um menor que está praticando um furto, de apreender um menor que está praticando um crime violento, enfim. A gente sabe que ele poderá ser liberado e se voltar a praticar crime vai ser apreendido novamente. E tem um detalhe: essa ficha criminal desse menor lá na frente vai contar. Quando ele se tornar maior e o juiz verificar esses antecedentes. Logicamente não vai contar processo, mas dará ao juiz uma visão da vida pregressa dessa pessoa.

O nosso trabalho é contínuo, não pode deixar de ser feito até porque a cidade é nossa e temos que cuidar dela. Queremos uma cidade tranquila, andar na rua com a certeza da integridade física, com a certeza de que nossos familiares e nosso patrimônio estão preservados. É para isso que nos esforçamos, essa é a nossa missão, por isso não esmorecemos.

“Queremos uma cidade tranquila, andar na rua com a certeza da integridade física, com a certeza de que nossos familiares e nosso patrimônio estão preservados. É para isso que nos esforçamos, essa é a nossa missão, por isso não esmorecemos” (Capitão Gomes, da 151ª Cia de PMMG)

Nesse trabalho contínuo, e sabemos árduo, de combate ao tráfico de drogas, a Polícia Militar tem conseguido chegar a adultos que colocam menores na linha de frente?

Nós temos um trabalho de Inteligência porque sabemos que existem adultos usufruindo dos menores, que são uma mão de obra barata, portanto, colocados para atuar no tráfico de drogas. Na medida do possível, tentamos identificar maiores que estão aliciando os menores para a prática do crime de tráfico de drogas. Quando a gente apreende um menor desses e identificamos o maior envolvido, nós relacionamos esse adulto em relatórios que são encaminhados para a Polícia Civil que, consequentemente, faz uma investigação e envia esse trabalho para o Ministério Público para que – tanto o maior quanto o menor – respondam na Justiça. Nós temos uma seção de Inteligência que recebe as denúncias e fica por conta de identificar as pessoas envolvidas no tráfico de drogas e demais crimes, sejam maiores ou menores. 

A apreensão de drogas, de armas e até a devolução de objetos furtados aos respectivos donos também são respostas dadas à sociedade.

Com certeza. A nossa tropa é muito motivada e esse é o diferencial nosso. Quando chegamos aqui, no começo do ano, a incidência de furto era muito grande. Um problema que tínhamos na cidade era furto acontecendo diariamente. Buscamos um trabalho de acompanhamento dos infratores, um trabalho de combate ao tráfico de drogas, um trabalho de procura e identificação pelos receptadores porque quando há furto é porque alguém vai receptar. Com esses vários aspectos, nós conseguimos diminuir muito a incidência de furtos em Três Pontas e recuperamos muitos materiais furtados. Os furtos ainda acontecem, mas os números caíram bastante. A cidade é grande, nossos recursos são limitados, então, procuramos fazer uma análise criminal, verificar os locais de maior incidência, onde realmente precisa ser empregado o policial e com isso a gente consegue prevenir. O mais importante é que o crime não aconteça, mas quando acontece nós procuramos dar a resposta: identificar o autor, apreender o material e devolver para o proprietário.

O senhor considera a população trespontana parceira da Polícia Militar no combate aos crimes, ao tráfico de drogas?

Eu sou natural de Três Corações, trabalhei muito tempo em Varginha e percebo um diferencial de Três Pontas em relação a outras cidades. As pessoas daqui procuram cuidar da cidade, então, elas denunciam, elas passam informações para a Polícia Militar e com essa participação da comunidade é que nós conseguimos os índices criminais muito baixos. Nós tivemos, neste ano, um homicídio. Para uma cidade de quase 60 mil habitantes é um índice de homicídio muito baixo, comparado a países de primeiro mundo. A comunidade participa denunciando o tráfico de drogas, chamando a Polícia Militar quando vê alguma situação suspeita; a Polícia Militar procura estar lá abordando, verificando, identificando… isso é que permite que nós tenhamos índices tão baixos de criminalidade aqui na cidade.

No dia a dia, como o cidadão pode agir preventivamente?

Existe o que chamamos triângulo do crime: um autor motivado a praticar o crime, um alvo disponível e ausência de vigilância. Essas três coisas fazem com que o crime aconteça. Temos que cuidar bem de nós, de nossas residências, dos nossos familiares, dos nossos objetos, enfim. O autor só espera uma oportunidade. É isto que a gente pede para o cidadão: tomar cuidado. Pequenas atitudes fazem com que a criminalidade aconteça ou diminua. Uma coisa muito importante também é criar um bom relacionamento com as pessoas de sua confiança, com vizinhos, por exemplo, e avisá-los quando se ausentar, pedindo que se perceberem algo estranho acionar você ou a Polícia Militar. Essas são algumas medidas de autoproteção, medidas para que o crime não aconteça.

Capitão Gomes, este tem sido um ano atípico, sem aulas presenciais. O Proerd, que é um programa preventivo, especialmente voltado à questão ‘drogas’, não aconteceu em nossa cidade?

No ano passado tínhamos dois instrutores do Programa Educacional de Resistência às Drogas, o Proerd, em Três Pontas: a cabo Michele que foi transferida e o sargento Lima que se aposentou. Além disso, aconteceu a pandemia. Mas a Polícia Militar, sabendo da importância do Proerd para a prevenção ao uso e tráfico de drogas, providenciou uma plataforma para que as crianças pudessem acompanhar o programa educativo de suas casas, elas podem acessar o conteúdo das aulas pelo computador ou celular. Em Santana da Vargem temos os instrutores sargento William e o cabo Leandro. Sabemos da importância das aulas presenciais, mas como isso não tem sido possível devido à Covid-19, a Polícia Militar disponibiliza o Proerd em Casa.

Considerações finais.

Apesar de todas as dificuldades que estamos passando neste ano, temos buscado fazer um trabalho de excelência em Três Pontas e Santana da Vargem em todas as atribuições da Polícia Militar. Estamos nos aproximando do pleito eleitoral e a Polícia Militar é muito demandada nesse período. Vamos continuar dando suporte à Justiça Eleitoral para que as Eleições transcorram sem problemas. Durante a pandemia, temos sido também bastante demandados para auxiliar em medidas, por exemplo, de distanciamento social, recebemos algumas portarias e tivemos que atuar. Felizmente, apesar de tudo, conseguimos dar conta das demandas e cumprir bem nossa missão aqui. No mais, é pedir para a população de Três Pontas continuar apoiando a Polícia Militar porque esse trabalho conjunto permite que tenhamos uma cidade tranquila. Criminalidade zero não existe, mas nós – juntos – podemos fazer uma Três Pontas cada dia mais segura.

“Criminalidade zero não existe, mas nós – juntos – podemos fazer uma Três Pontas cada dia mais segura” (Cap. Gomes – PMMG)


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